Shine e um integrante da equipe olham para o alto da copa entre troncos alaranjados pela luz do amanhecer

Ensaio · PerfilEdição 01

Antes do design, existe a floresta

Shine Braga passou anos pesquisando materiais. A busca terminou onde a madeira começa.

Texto Redação CicloFotografia Thiago Gonçalvez8 min

Há designers que escolhem a madeira pelo catálogo. Shine Braga quis saber de onde ela vinha. A pergunta nasceu no estúdio, entre amostras, acabamentos e fornecedores, e foi crescendo até não caber em nenhuma amostra.

À frente da SBC Arquitetura e Design, ela passou anos pesquisando materiais. Conhecia a madeira pelo toque, pela cor, pelo jeito como ela se comporta na bancada. Faltava conhecer o que vinha antes.

No estúdio, a madeira chega em peças, já cortada, já com nome comercial. O que ela era antes fica de fora da nota fiscal.

“A madeira chega com um nome comercial e mais nada. Eu queria saber que árvore estava ali dentro, onde ela cresceu, como foi extraída. Não dá para desenhar uma peça bonita sem saber se, para existir, ela tirou da floresta o que não deveria ter sido tirado.”

Shine encosta a testa e a mão no tronco de uma árvore, de olhos fechados, com a floresta iluminada pelo sol da manhã ao fundo

Floresta de Mogno Bahia® · A casca riscada de cobre, de perto

A floresta

Ir até lá

Para responder, era preciso sair do estúdio. Shine chegou às florestas de Mogno Bahia® em Serra Dourada e Santana ao amanhecer, quando a luz baixa acende os troncos em laranja. Encontrou fileiras totalmente simétricas e plantios de idades diferentes, que mostram a floresta em várias fases.

Encantou-se com a luz, com o silêncio e com a escala das árvores. E também com o que aquela floresta é: um experimento científico a céu aberto.

“Eu esperava encontrar uma floresta. Encontrei ciência.”

Retrato de Shine apoiada num tronco, olhando para o lado, com o rosto iluminado pelo sol da manhã

Antes de desenhar a peça, eu queria conhecer a floresta.

Shine Braga · Embaixadora Mogno Bahia®

A matéria

A cor do cerne

De volta à bancada, Shine segurou um disco recém-cortado. O que chama a atenção primeiro é a cor. A faixa clara junto à casca é o alburno, a parte do lenho que ainda conduz água e nutrientes. Com o tempo, as camadas mais internas deixam essa função, acumulam substâncias naturais e escurecem, formando o cerne, de tom avermelhado.

Foi esse vermelho que a fez lembrar do mogno brasileiro, presença constante no mobiliário e na arquitetura modernista do país. Hoje a espécie é considerada vulnerável à extinção, e seu uso é restrito.

“A cor me lembrou na hora o mogno brasileiro, a madeira do mobiliário modernista, que hoje quase não se pode usar. Encontrar esse tom numa madeira cultivada foi o que mais me tocou.”

Shine segura uma rodela de Mogno Bahia® com casca e observa o cerne avermelhado e o alburno claro

Atelier Mogno Bahia® · O cerne no centro, o alburno em volta

O Atelier

Desenhar com as mãos

No Atelier Mogno Bahia®, a conversa continua com as mãos. O desenho não vem antes da madeira, vem junto. Um bloco é escolhido, medido e aberto na serra de fita, e o que aparece no corte muda o desenho.

Foi ali que a coleção ganhou corpo. Shine testou cortes, espessuras e acabamentos peça por peça, observando como o veio respondia a cada escolha.

“Eu não queria esconder a madeira. Queria que cada peça deixasse o Mogno Bahia® aparecer.”

Shine se inclina sobre blocos largos de Mogno Bahia® na bancada do Atelier, com a serra de fita antiga ao fundo e paredes verdes

Atelier Mogno Bahia® · A escolha dos blocos

Shine, de óculos de proteção, conduz uma peça na serra de fita
Mãos deslizam sobre uma tábua de Mogno Bahia® com acabamento, o veio refletindo a luz

Serrar, tocar · O corte na serra de fita e o veio depois do acabamento

A estreia

Rhyza, a primeira coleção autoral

Das perguntas nasceu Rhyza, a coleção que Shine apresenta em novembro, na Herança Cultural. Como Embaixadora Mogno Bahia®, ela é a primeira designer a lançar uma coleção autoral em Mogno Bahia®.

Em algumas peças, vernizes em diferentes tonalidades mudam o tom da superfície e mantêm à vista o veio e a textura. É o Mogno Bahia® com tonalidades, a mesma madeira lida de outras maneiras.

Shine aplica verniz com um pincel fino numa peça de Mogno Bahia®, na bancada do Atelier, com potes e pincéis ao redor

Mogno Bahia® com tonalidades · O verniz aplicado à mão

“Rhyza vem de raiz. É uma coleção sobre começar por baixo, de onde tudo cresce.”

Da genética à floresta. Da floresta ao design.

Imagem: Acervo Mogno Bahia® / GWG · @mognobahia.br

Também na Edição 01: O tempo da madeira, com Abel Ribeiro, e A madeira que precisa provar quem é, com Diego Romeiro. Ver a edição completa.

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Os próximos artigos da Edição 01 chegam em breve.

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